Nova Escola> Quando os teóricos
da Educação perceberam que o ensino de disciplinas,
de forma estanque, não servia ao processo ensino-aprendizagem?
Ronca< Não sei se posso
responder que isto ocorreu, em geral, com teóricos da
Educação. Hoje, vejo diversos cientistas preocupados
com a questão e escrevendo com arrojo e criatividade.
Isto porque, num mundo onde o jovem é atingido por densos
estímulos visuais, a noção íntima
de tempo e de espaço mudou drasticamente e a iminência
de uma guerra bacteriológica contrasta com as facilidades
da informática, do consumo e dos prazeres, é obrigatório
revermos o trato que temos dado à construção
do Conhecimento. Entre outros, esse arrojo chama-se Transdisciplinaridade.
NE> Por que esse sistema permaneceu
em vigor durante tanto tempo? A quem servia esse tipo de abordagem
na Educação?
Ronca< O Conhecimento, dividido
em disciplinas estanques, tornou-se um fenômeno tão
emaranhado em múltiplas e históricas dimensões,
fôrmas e reformas, que seria infrutífero ordená-las.
No Brasil, deveríamos buscar, talvez, algumas raízes
nas Aulas Régias, dos Jesuítas e, também,
na avassaladora e impertinente influência do Positivismo.
A quem serviu esse tipo de abordagem? É notório
que, dividindo-se e classificando-se a Ciência, o resultado
foi a sua elitização e, conseqüentemente,
a elitização de quem a procurava e vivenciava
o processo de construção do Conhecimento. Hierarquizando-a,
hierarquizou-se a sociedade. Jogo com cartas marcadas.
|
"Aqui há
espaço para um pensamento tão amplo quanto
aberto; tão extenso quanto dilatado." ".
Dr.
Paulo Afonso Caruso Ronca
|
 |
|
i
|
 |
|
i
|
 |
|
Fotos:
Renata
Ursaia
|
NE> Hoje, fala-se em Interdisciplinaridade.
Quais as suas características? Ela quebra o sistema antigo
da divisão do Conhecimento em diversas disciplinas? Um
exemplo, por favor.
Ronca< Interdisciplinaridade
é um conceito novo e denso, vindo contribuir para uma
outra visão de construção do Conhecimento.
Não devemos correr o risco de, simplesmente, vê-la
como mistura de conhecimentos das diferentes disciplinas mas,
como a possibilidade da transferência de métodos
de uma disciplina para a outra. Por exemplo, métodos
da Química utilizados pela Medicina, abrem inúmeras
possibilidades para o tratamento radioquimioterápico
de câncer de pele; os utilizados pela Informática,
ajudam-nos na construção de Artes ou na Arquitetura.
Interdisciplinaridade não quebra o sistema (antigo) da
divisão do Conhecimento em diversas disciplinas. Ultrapassa-o,
sim. Todavia, o seu fim último permanece inserido no
estudo disciplinar e dependente deste. Pedi a você escrever
"antigo" entre parênteses, pois não se
trata de eliminar conceitos, substituindo-os por novos, amparados
em modelos pelos quais devemos cerrar fileiras ou levantar bandeiras.
Chega de moda em Educação. Fique claro: disciplinaridade,
interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, fazem parte da
construção do Conhecimento, da Epistemologia e
do universo cognitivo íntimo do humano.
NE> Transdisciplinaridade!
Dr. Ronca, quando foi usado o conceito pela primeira vez e como
o Sr. o explica?
Ronca< Conta a História
que Piaget o utilizou nos anos 1970, pela primeira vez. Há
nele uma singela contradição: primeiro, trans
pode sugerir transpassar, passar além, transpor, enxergar
através. E disciplina vem mostrar um conjunto de regulamentos
destinados a manter uma ordem. O trans atravessa a disciplina,
corta-a, dilacera-a, impondo uma outra visão sobre ela
própria. O pensamento transdisciplinar nos leva em busca
do universal, do cósmico e de um nova dimensão,
quiçá, a transcendental; aqui temos espaço
para um pensamento tão amplo, quanto aberto; tão
extenso, quanto dilatado. Espero que tal consciência nos
retribua o que a percepção fechada das ciências
nos tirou: uma visão cósmica! Se cada disciplina
segue uma metodologia e se cada conhecimento des-vela uma pequenina
parte da verdade mais ampla, a Transdisciplinaridade busca,
justamente no humano, o objeto comum em que todos os pensares
começam e terminam por se encontrar.
NE> Transdisciplinaridade!
Como o Sr. a define?
Ronca< Transdisciplinaridade
não é uma teoria. É mais. É uma
abordagem íntima, uma postura! É estado de espírito,
um pressuposto subjetivo, espécie de peripécia
da mente, a ser assimilada e vivida pelos quem ensinam, aprendem
ou trabalham. É uma postura perante os saberes, uma habilidade
que se concretiza na possibilidade de vinculá-los, sincrônicos
e contínuos. Enfim, tratá-los simultaneamente.
Reconhecemos a genuinidade de cada área do Conhecimento
mas, queremos vivenciar a sua indissolubilidade.
NE> Então, pelo que
entendo, não existem métodos específicos
para se trabalhar dentro da Transdisciplinaridade?
Ronca< Perfeito o seu
entendimento, pois o objetivo final da Transdisciplinaridade
é a de acolhimento e compreensão do mundo histórico-presente,
para o qual um dos imperativos é a unidade de conhecimentos,
oferecendo uma percepção mais coesa e compreensiva
dos mesmos, visando à construção do futuro.
É o fim da visão individualista ou mecanicista,
que é reducionista por nascença. Neste sentido
vivo, hoje, um processo existencial mais profundo, entendendo
Transdisciplinaridade como o fim da era da divisão das
Ciências: não existem mais as ciências humanas,
as exatas ou as biológicas ou outras, como a computacional,
por exemplo. Afinal, até quando dividiremos as Ciências
como se corta um bolo? Em conclusão: toda Ciência
é humana. É do humano. É para o humano.
E por que não dizer, para além dele! Quão
tardiamente percebemos que a rigidez imposta na divisão
das Ciências, a inflexibilidade que adotamos em aulas
e a severidade de nossas concepções, só
levaram ao empobrecimento de idéias ou à exclusão
social.
NE> O Sr. sugere o fim
de qualquer tipo de hierarquização?
Ronca< Não só
eu como qualquer outro cientista que queira assumir uma consciência
transdisciplinar. Transdisciplinaridade não rejeita,
mas reúne as teorias, nelas percebendo o "invisível",
esperando buscar o ponto que lhes é comun. Recusando
fragmentações ou divisões, ela considera
diferentes ângulos da realidade, das ciências e
das culturas e os aproxima, num movimento subjetivo de interação,
de integração, digamos, intersecção.
O físico Goswani pensa em interconectividade. O pensamento
transdisciplinar escapa das garras do que se convencionou chamar
de natureza científica, caindo nas mãos de novas
dimensões filosóficas, ideológicas e políticas,
que determinem outros parâmetros para a compreensão
do humano. Nos últimos séculos, tanto a visão
de conhecimento como a atuação no mundo do trabalho,
foram alicerçadas num ponto de vista piramidal. Com uma
importante base que a tudo sustentava, o que se erguia a partir
dela ia se perdendo em importância social e econômica
ou consideração política. O pensamento
transdisciplinar conclama o fim das divisões piramidais
e busca um ponto comum, que une, unta, ata. Morin usa o termo
fim da separabilidade. Buscamos um denominador comum. Eis a
questão!
NE> Adentremos a escola.
E, aí, quais modificações o Sr. sugere?
Na organização do tempo e do espaço escolar?
No currículo e nos conteúdos?
Ronca< Tanto na Educação,
quanto no mundo do trabalho a Transdisciplinaridade poderá
ajudar educadores e líderes a reverem suas posições
sobre o humano. Na escola, busca-se uma profunda mudança
nas relações sociais e políticas aí
vividas. Explico concretamente: 1º. A vida na escola, aquela
que divide o tempo em aulas de cinqüenta minutos e determina
o "professor horista", já está caduca.
2º - A escola precisa aprender a movimentar-se em outros
espaços, não fazendo da sala de aula a única
passarela em que desfila o mundo do conhecimento. 3º -
Educadores, necessitamos viver a transgressão das fronteiras
impostas entre as disciplinas, isto é, o currículo
transdisciplinar deve alimentar em nosso coração
a idéia de que ninguém é melhor do que
ninguém, de que nenhuma disciplina tem mais valor do
que as outras e de que a nossa missão não se esgota
na explicação de conteúdos implícitos
nelas. 4º - Um currículo transdisciplinar sugere
a abertura de nossa mente para que, numa lucidez cósmica,
possamos abordar, crítica e simultaneamente, dimensões
como ecologia, artes, TV, tecnologia, política, meditação,
guerras, relações de amor e de trabalho...
NE> Insisto: um outro
exemplo...
Ronca< Como exemplos
exigem discussões, eles correm risco de obscurecer o
discurso. Mas, vá lá: pensemos o projeto de uma
horta a ser construída na escola com o conseqüente
desabrochar de hortaliças. Imaginemos como e quantos
educadores e alunos dele participariam, no quotidiano de uma
série qualquer. Entre todos, simultaneamente, as discussões
se efetivariam na mensuração de áreas e
medidas e na arquitetura de sua construção; na
qualidade da terra, dos insumos necessários, na escolha
e compra de sementes e na direção em que o sol
se faria presente; na leitura de textos que discutissem a necessidade
que o organismo humano delas tem e o seu papel no aparelho digestivo,
em especial no funcionamento do intestino. Enquanto alguns iriam
à feira para ver o seu preço, calculando o lucro
de produtores e vendedores, outros levantariam hipóteses
se o brasileiro comum pode ou não tê-las à
mesa. Poder-se-ia pesquisar outras civilizações
que se valiam deste tipo de horticultura para a sua alimentação?
Como poderia ser representado o desenvolvimento de legumes e
vegetais na expressividade artística, gráfica,
musical ou corporal? Haveria um momento de experiências
com sementes para observação de mutações
genéticas e parte das verduras poderia ser colocada em
estufas para a comparação de seu desenvolvimento.
(Seria necessário "dar um pulo" em Marrakech,
Marrocos, onde países discutem as mudanças climáticas
na atmosfera, provenientes da absorção da radiação
solar, aquecendo a superfície do planeta). Os jovens
as regam e as hortaliças crescem e, depois de colhê-las,
lavá-las e ensacá-las, dirigem-se ao hospital
da região para doá-las. Na doação
daquelas hortaliças, vai um pouco de cada humano que
participou de seu crescimento e que, agora, sente a experiência
da cooperação. Enfim...
NE> Conclua...
Ronca< ...enfim, trazendo
o Mundo para dentro da sala de aula, discutindo-o e incorporando-o,
e educando um pensamento transdisciplinar, tendo o humano como
o epicentro de discussões dialéticas, estamos
vivendo a Transdisciplinaridade. Nesta, ora pois, manifesta-se
a aurora de um novo e revolucionário conceito de humanismo.