ENTREVISTA
Foto: Gilvan Barreto


Leia a seguir a íntegra da entrevista publicada na revista Nova Escola em dezembro de 2001, com o Prof. Dr. Paulo Afonso Caruso Ronca.

Para saber mais da revista nova escola basta clicar na imagem ao lado.

o Instituto Esplan agradece a editoria da revista por permitir a publicação da entrevista em nosso web site.

Nova Escola> Quando os teóricos da Educação perceberam que o ensino de disciplinas, de forma estanque, não servia ao processo ensino-aprendizagem?
Ronca< Não sei se posso responder que isto ocorreu, em geral, com teóricos da Educação. Hoje, vejo diversos cientistas preocupados com a questão e escrevendo com arrojo e criatividade. Isto porque, num mundo onde o jovem é atingido por densos estímulos visuais, a noção íntima de tempo e de espaço mudou drasticamente e a iminência de uma guerra bacteriológica contrasta com as facilidades da informática, do consumo e dos prazeres, é obrigatório revermos o trato que temos dado à construção do Conhecimento. Entre outros, esse arrojo chama-se Transdisciplinaridade.

NE> Por que esse sistema permaneceu em vigor durante tanto tempo? A quem servia esse tipo de abordagem na Educação?
Ronca< O Conhecimento, dividido em disciplinas estanques, tornou-se um fenômeno tão emaranhado em múltiplas e históricas dimensões, fôrmas e reformas, que seria infrutífero ordená-las. No Brasil, deveríamos buscar, talvez, algumas raízes nas Aulas Régias, dos Jesuítas e, também, na avassaladora e impertinente influência do Positivismo. A quem serviu esse tipo de abordagem? É notório que, dividindo-se e classificando-se a Ciência, o resultado foi a sua elitização e, conseqüentemente, a elitização de quem a procurava e vivenciava o processo de construção do Conhecimento. Hierarquizando-a, hierarquizou-se a sociedade. Jogo com cartas marcadas.

"Aqui há espaço para um pensamento tão amplo quanto aberto; tão extenso quanto dilatado." ".

Dr. Paulo Afonso Caruso Ronca

i
i
Fotos: Renata Ursaia

NE> Hoje, fala-se em Interdisciplinaridade. Quais as suas características? Ela quebra o sistema antigo da divisão do Conhecimento em diversas disciplinas? Um exemplo, por favor.
Ronca< Interdisciplinaridade é um conceito novo e denso, vindo contribuir para uma outra visão de construção do Conhecimento. Não devemos correr o risco de, simplesmente, vê-la como mistura de conhecimentos das diferentes disciplinas mas, como a possibilidade da transferência de métodos de uma disciplina para a outra. Por exemplo, métodos da Química utilizados pela Medicina, abrem inúmeras possibilidades para o tratamento radioquimioterápico de câncer de pele; os utilizados pela Informática, ajudam-nos na construção de Artes ou na Arquitetura. Interdisciplinaridade não quebra o sistema (antigo) da divisão do Conhecimento em diversas disciplinas. Ultrapassa-o, sim. Todavia, o seu fim último permanece inserido no estudo disciplinar e dependente deste. Pedi a você escrever "antigo" entre parênteses, pois não se trata de eliminar conceitos, substituindo-os por novos, amparados em modelos pelos quais devemos cerrar fileiras ou levantar bandeiras. Chega de moda em Educação. Fique claro: disciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, fazem parte da construção do Conhecimento, da Epistemologia e do universo cognitivo íntimo do humano.

NE> Transdisciplinaridade! Dr. Ronca, quando foi usado o conceito pela primeira vez e como o Sr. o explica?
Ronca< Conta a História que Piaget o utilizou nos anos 1970, pela primeira vez. Há nele uma singela contradição: primeiro, trans pode sugerir transpassar, passar além, transpor, enxergar através. E disciplina vem mostrar um conjunto de regulamentos destinados a manter uma ordem. O trans atravessa a disciplina, corta-a, dilacera-a, impondo uma outra visão sobre ela própria. O pensamento transdisciplinar nos leva em busca do universal, do cósmico e de um nova dimensão, quiçá, a transcendental; aqui temos espaço para um pensamento tão amplo, quanto aberto; tão extenso, quanto dilatado. Espero que tal consciência nos retribua o que a percepção fechada das ciências nos tirou: uma visão cósmica! Se cada disciplina segue uma metodologia e se cada conhecimento des-vela uma pequenina parte da verdade mais ampla, a Transdisciplinaridade busca, justamente no humano, o objeto comum em que todos os pensares começam e terminam por se encontrar.

NE> Transdisciplinaridade! Como o Sr. a define?
Ronca< Transdisciplinaridade não é uma teoria. É mais. É uma abordagem íntima, uma postura! É estado de espírito, um pressuposto subjetivo, espécie de peripécia da mente, a ser assimilada e vivida pelos quem ensinam, aprendem ou trabalham. É uma postura perante os saberes, uma habilidade que se concretiza na possibilidade de vinculá-los, sincrônicos e contínuos. Enfim, tratá-los simultaneamente. Reconhecemos a genuinidade de cada área do Conhecimento mas, queremos vivenciar a sua indissolubilidade.

NE> Então, pelo que entendo, não existem métodos específicos para se trabalhar dentro da Transdisciplinaridade?
Ronca< Perfeito o seu entendimento, pois o objetivo final da Transdisciplinaridade é a de acolhimento e compreensão do mundo histórico-presente, para o qual um dos imperativos é a unidade de conhecimentos, oferecendo uma percepção mais coesa e compreensiva dos mesmos, visando à construção do futuro. É o fim da visão individualista ou mecanicista, que é reducionista por nascença. Neste sentido vivo, hoje, um processo existencial mais profundo, entendendo Transdisciplinaridade como o fim da era da divisão das Ciências: não existem mais as ciências humanas, as exatas ou as biológicas ou outras, como a computacional, por exemplo. Afinal, até quando dividiremos as Ciências como se corta um bolo? Em conclusão: toda Ciência é humana. É do humano. É para o humano. E por que não dizer, para além dele! Quão tardiamente percebemos que a rigidez imposta na divisão das Ciências, a inflexibilidade que adotamos em aulas e a severidade de nossas concepções, só levaram ao empobrecimento de idéias ou à exclusão social.

NE> O Sr. sugere o fim de qualquer tipo de hierarquização?
Ronca< Não só eu como qualquer outro cientista que queira assumir uma consciência transdisciplinar. Transdisciplinaridade não rejeita, mas reúne as teorias, nelas percebendo o "invisível", esperando buscar o ponto que lhes é comun. Recusando fragmentações ou divisões, ela considera diferentes ângulos da realidade, das ciências e das culturas e os aproxima, num movimento subjetivo de interação, de integração, digamos, intersecção. O físico Goswani pensa em interconectividade. O pensamento transdisciplinar escapa das garras do que se convencionou chamar de natureza científica, caindo nas mãos de novas dimensões filosóficas, ideológicas e políticas, que determinem outros parâmetros para a compreensão do humano. Nos últimos séculos, tanto a visão de conhecimento como a atuação no mundo do trabalho, foram alicerçadas num ponto de vista piramidal. Com uma importante base que a tudo sustentava, o que se erguia a partir dela ia se perdendo em importância social e econômica ou consideração política. O pensamento transdisciplinar conclama o fim das divisões piramidais e busca um ponto comum, que une, unta, ata. Morin usa o termo fim da separabilidade. Buscamos um denominador comum. Eis a questão!

NE> Adentremos a escola. E, aí, quais modificações o Sr. sugere? Na organização do tempo e do espaço escolar? No currículo e nos conteúdos?
Ronca< Tanto na Educação, quanto no mundo do trabalho a Transdisciplinaridade poderá ajudar educadores e líderes a reverem suas posições sobre o humano. Na escola, busca-se uma profunda mudança nas relações sociais e políticas aí vividas. Explico concretamente: 1º. A vida na escola, aquela que divide o tempo em aulas de cinqüenta minutos e determina o "professor horista", já está caduca. 2º - A escola precisa aprender a movimentar-se em outros espaços, não fazendo da sala de aula a única passarela em que desfila o mundo do conhecimento. 3º - Educadores, necessitamos viver a transgressão das fronteiras impostas entre as disciplinas, isto é, o currículo transdisciplinar deve alimentar em nosso coração a idéia de que ninguém é melhor do que ninguém, de que nenhuma disciplina tem mais valor do que as outras e de que a nossa missão não se esgota na explicação de conteúdos implícitos nelas. 4º - Um currículo transdisciplinar sugere a abertura de nossa mente para que, numa lucidez cósmica, possamos abordar, crítica e simultaneamente, dimensões como ecologia, artes, TV, tecnologia, política, meditação, guerras, relações de amor e de trabalho...

NE> Insisto: um outro exemplo...
Ronca< Como exemplos exigem discussões, eles correm risco de obscurecer o discurso. Mas, vá lá: pensemos o projeto de uma horta a ser construída na escola com o conseqüente desabrochar de hortaliças. Imaginemos como e quantos educadores e alunos dele participariam, no quotidiano de uma série qualquer. Entre todos, simultaneamente, as discussões se efetivariam na mensuração de áreas e medidas e na arquitetura de sua construção; na qualidade da terra, dos insumos necessários, na escolha e compra de sementes e na direção em que o sol se faria presente; na leitura de textos que discutissem a necessidade que o organismo humano delas tem e o seu papel no aparelho digestivo, em especial no funcionamento do intestino. Enquanto alguns iriam à feira para ver o seu preço, calculando o lucro de produtores e vendedores, outros levantariam hipóteses se o brasileiro comum pode ou não tê-las à mesa. Poder-se-ia pesquisar outras civilizações que se valiam deste tipo de horticultura para a sua alimentação? Como poderia ser representado o desenvolvimento de legumes e vegetais na expressividade artística, gráfica, musical ou corporal? Haveria um momento de experiências com sementes para observação de mutações genéticas e parte das verduras poderia ser colocada em estufas para a comparação de seu desenvolvimento. (Seria necessário "dar um pulo" em Marrakech, Marrocos, onde países discutem as mudanças climáticas na atmosfera, provenientes da absorção da radiação solar, aquecendo a superfície do planeta). Os jovens as regam e as hortaliças crescem e, depois de colhê-las, lavá-las e ensacá-las, dirigem-se ao hospital da região para doá-las. Na doação daquelas hortaliças, vai um pouco de cada humano que participou de seu crescimento e que, agora, sente a experiência da cooperação. Enfim...

NE> Conclua...
Ronca< ...enfim, trazendo o Mundo para dentro da sala de aula, discutindo-o e incorporando-o, e educando um pensamento transdisciplinar, tendo o humano como o epicentro de discussões dialéticas, estamos vivendo a Transdisciplinaridade. Nesta, ora pois, manifesta-se a aurora de um novo e revolucionário conceito de humanismo.

  PARA LER:
O pensamento parece uma coisa à-toa... - Paulo Afonso Ronca e Cleide Terzi. Editora Edesplan, 2001.
O manifesto da transdisciplinaridade - Basarab Nicolescu. Editora Hugin, 2000
Transdisciplinaridade - Ubiratan D'Ambrosio. Editora Palas Athena, 1997
Transdisciplinaridade e Cognição - Humberto Maturana. Escola do Futuro. USP, 1999.