ENSAIOS


JORNAL APASE

Suplemento Pedagógico

 

DE 1492 a 2002.
DE CRISTÓVÃO COLOMBO AOS DESAFIOS DE NOSSOS DIAS.

Ensaio (1)

Paulo Afonso Caruso Ronca (2)

1492.
Santa Maria, Pinta e Niña eram os nomes das caravelas. Aos 3 dias do mês de Agosto de 1492 saíram do porto de Palos, na Espanha inquisidora e ensangüentada. Após dois terríveis meses, dependurados no Oceano Atlântico, os tripulantes já preparavam um motim, pois não havia sinais das terras prometidas. Todavia, na madrugada de 12 de Outubro, da proa da Pinta, alguém berra: "TERRA"! A expedição chegara às Bahamas, fincando âncoras na ilha de Guanahami, depois chamada de São Salvador. O Novo Mundo acabara de se descortinar para os europeus. O comandante, um genovês de personalidade e ações controvertidas, estava feliz. Chamava-se Cristóvão Colombo. Conta a História que ele pressentia episódios amargos...(3)

2002.
Sinta-se o leitor um privilegiado; não por ler-me, mas simplesmente por ler. Não por pensar comigo, mas por poder pensar. Sinta-me o leitor um privilegiado; não por escrever, porém por escrever-lhe. Ler, pensar e escrever, funções da mente de alta periculosidade e de grave responsabilidade, serão agora acionadas, para serem vividas por nós dois.
Nesta nossa América, ocupada por milhões de humanos não-alfabetizados, culpar-me-ia se não escrevesse este ensaio, pois que me envolvem sentimentos de participação ativa e de obrigação de trocar idéias para gerar as mudanças esperadas.
Como acredito não ter vindo a este mundo a passeio, envergonho-me pelo que, nele, ajudei a construir e sinto-me confuso pela maneira em que vivemos. Essa é a leitura mais convincente que se pode fazer em busca de transformações. Estas são exigidas por causa de uma dinâmica contraditória instalada nesta sociedade, que acaba empurrando milhões de humanos para condições de trabalho e de vida tão instáveis, quanto aviltantes. De permeio, a sensibilidade não foi o sinal evidente do fim do século passado e nem se arrasta para este que se inicia; tal situação é símbolo da atual impossibilidade de divisão de bens, comidas e terras e de, modo essencial, das riquezas comunitariamente construídas. Em pencas, pessoas há se movimentando neste universo tão doloroso e, marcadas pela condição subalterna, socializam a angústia e apresentam sinais que apontam para a pobreza e a miséria. Vivemos entre os abismos que nos separam.
Acabou-se a brincadeira. Talvez seja a enésima súplica que se ouve ou que se faça em prol do término de tempos de desalento e exasperação pelos quais passamos. Dolorosos incidentes e graves temas de debate não devem ser tratados às escaramuças, mas à luz do dia e não vale deixar adormecidos. Pelo contrário, a sociedade contemporânea apresenta uma série de desafios, os quais necessitam soluções e encaminhamentos urgentes.
Aqui, proponho discuti-los tendo a História como pano de fundo. Não fosse este o motivo, a narração histórica que permeia este texto, ficaria nestas páginas penduradas, como quando se prende uma roupa no varal e ela fica exposta ao sabor dos ventos. Sem a História como alça, as discussões tornam-se estéreis e as respostas aos problemas, simplórias. É óbvio que não há relação direta entre o que discutiremos e, por exemplo, a expedição colombiana. Todavia, a História ilumina a nossa percepção, justamente, quando dela ousamos pinçar acontecimentos, transformando-os em fenômenos dialéticos, embrulhados no mesmo pacote do nosso quotidiano ou de nossa realidade contemporânea e existencial.
Não é, pois, tão somente a História que clareia a nossa percepção, mas a maneira de lê-la, senti-la e interpretá-la. Passado e presente misturam-se, não para serem unicamente comparados, mas para nos ajudar na compreensão e na explicação de nossa existência!
A lhe darmos crédito e espaço, compreendemos a História, podendo fazer deduções lógicas e dialéticas; aí, sim, sentimos nos invadir o princípio de responsabilidade social e de co-participação que nos deve reunir. Bem, o acontecido com qualquer um de nós, atinge-nos a todos de maneira cíclica, comparada a uma equação matemática com um resultado certo: cada um de nós é parte do todo. A alegria de qualquer pessoa é o meu contentamento, enquanto o meu desespero é a aflição do outro; enfim, a água em que você se molha, respinga em alguém, próximo ou distante, mas respinga.
De maneira abrangente, penso que os meus alunos não são meus alunos, mas também seus; os seus alunos não são seus alunos, mas também meus... e, assim por adiante, o efeito dominó atinge peça por peça, melhor dizendo, humano por humano.
Entendamo-nos, de princípio, quanto à miséria que invade esta pátria, que, agora, se não está mais sob a tirania militar, vive debaixo de outro tipo de ditadura, a econômica. Pois bem, não se deve acabar com os miseráveis, mas com a miséria; não se deve pôr fim em bandidos, contudo no bandidismo. Mesmo porque eles se multiplicam com a mesma velocidade com que uma faca afiada corta a laranja; haja vista os que conseguiram levar à bancarrota o Banespa; os que têm guardados um milhão e trezentos mil reais nos cofres de casa e sem explicações e aqueles que lucram ilicitamente com superfaturamento de túneis e avenidas espraiadas.
Há um tipo de malfeitores presos em nossos cárceres e há um outro a perambular solto, de gravatas ou de saias, vestimentas estas que acobertam esses poderosos que, pelo roubo da dinheirama pública, são considerados os principais responsáveis pela exclusão social e por um Brasil desregrado e anárquico. Ora pois, bandidismo-poder-corrupção: um triângulo amoroso, um elo cobiçado e um dos fenômenos que atrasam o desenvolvimento em nossa América.
Estampada, eis um pouco de nossa História a pedir uma reflexão profunda e ações de todos os cidadãos para que se sintam acordados e com a mente e a consciência abertas.
Outrossim, é bem possível que alguém pressinta episódios amargos...

1492.
As melhores terras ficaram com os europeus e os índios foram despojados de suas casas, de seus costumes e da religião; a mortandade masculina foi espetacular; os indígenas matavam os seus próprios filhos ou suicidavam-se em desespero; o sarampo, a varíola e a pestilência epidêmica assolaram o continente, beirando até a região andina; a população, antes contada em milhões, foi reduzida a centenas e uma nova diáspora se iniciava.
Contradição é marca registrada dos humanos. Incoerentes, pensamos e sentimos de uma maneira e agimos de outra, parecendo, às vezes, não restar nada a ser feito! Não foi diferente com Colombo. Veio com planos de "exploração" e deu mostras de "colonização"; queria "descobrir" e acabou por "invadir". Sim, eis a chave da discussão, pois os relatos dos historiadores apontam no sentido da opressão colonial, criando-se um abismo entre índios e europeus. Seguida de um genocídio, a conquista foi traumática.

2002.
Perguntar-me-ia o leitor curioso por que ainda não escrevi sobre Educação, escolas, professores ou mesmo supervisores, dado que este folhetim é a eles consagrado. Se não o fiz, foi de propósito e espero fazê-lo com parcimônia e só na conclusão. Isto porque não vejo mais outra maneira de pensar Educação a não ser colocando-a no eixo condutor de uma análise da Existência e, assim, favorecendo uma ampla reflexão sobre o quotidiano, a vida das pessoas, seus costumes e crenças. Não há outro caminho a não ser inserindo-a na História e observando as suas múltiplas relações com o contemporâneo. Enfim, a busca da compreensão da nossa Existência é o referencial e o porta-bandeira de todos os meus pensares.
É impossível ser mais explícito. Então, guardemos em mente que não servem mais exemplos ou propostas em Educação, posto que dentro de mim trava-se a batalha final entre o que são "modelos" e o que é "visão" educacional. Modelos são fechados, herméticos, vindos de cima para baixo, sem possibilitar que as pessoas pensem. Outrossim, a "visão" de Educação, sobreposta à visão de Mundo, é aquela que conduz o fazer na escola, pois nossas ações são o espelho do que sentimos ou pensamos.
Ao prestar um pouco a atenção, o leitor observará que, se tivermos uma visão dominadora, a Educação será autoritária; se o lucro ocupar nossa mente e sentimentos, ela será mercantilista; se possuirmos um olhar episódico da realidade, as aulas serão descontextualizadas e se insistirmos em uma prática fragmentada dos conteúdos ou da produção de conhecimento, a vida acadêmica será marcada pela descontinuidade. Afinal de contas, só se dá o que se tem.
Paremos por um instante. Hoje, a noção "contextualização" é muito difundida entre todos os cientistas. E o que vem a ser? Como trabalhá-la em contato com as crianças e jovens? Para responder a essas indagações, de forma bem didática, estudemos o que não é contextualização. A televisão, em geral, e a brasileira, em particular, nos oferece possibilidade de discussão sobre tais temas.
Por que a tevê? Porque os fenômenos que circundam a nossa existência, as Artes, a Música, a Literatura, a Geografia, a Matemática, a Física, todos eles e outros, nunca flutuam no vácuo. Emergem, sim, do contexto sociocultural e estão em íntima sintonia com este. Mostram seus problemas, escancaram suas contradições e, especialmente, ditam a hierarquia ou as mudanças de valores éticos e morais neste mesmo contexto.
Nascida de parto fácil, da família das ostras (4), no fim do século passado e por carência das comunicações de massas, a televisão possui um quê de "substantivo abstrato", sem vida própria, dado que precisa dos humanos para existir; assim, ela é fruto de nossa criação e de nossa imaginação. Sonolenta, sendo feita de pessoas para pessoas, ela segue em marcha repetitiva e obsessiva, transformando-se numa necessidade radical, quotidiana e indispensável. Altiva e rainha de todos os lares, bares e botecos, impera sobre os demais meios e comunica-se de forma despótica; como em todo o império vive-se a megalomania; como todo reino, induz ao fanatismo.
Nela, tudo é permitido e, quaisquer que sejam os caminhos, sempre passam a justificar os fins. Perante ela, milhões de telespectadores tornam-se dóceis, abrem as comportas da submissão e o rio da massificação as invade de maneira brutal. O dinheiro é a sua única linguagem, a beleza física a sua caligrafia perfeita e o consumo, o seu principal verbo.
A tevê (ou os seus produtores...) sofre de um mal clássico e identificado na Psicopatologia, a saber: "a destruição do objeto amado", isto porque, ao mesmo tempo em que ama o seu espectador, o destrói. Arruína-o, quando induz ao consumismo voraz e porque está algemada pelo mecanismo publicitário. Devasta-o, quando é obrigada a converter audiência em faturamento e quando, num ritual satânico e oportunista, sai em busca do espetacular, do exibicionismo, das crendices e religiosidades resignadas e humilhantes. Indo além, empanturra-se do supérfluo, da bobice e das desgraças de outrem. Ai de nós!

1492.
"Saibam Vossas Altezas que esta Ilha Espanhola lhes pertence, tanto quanto Castela; falta apenas construir nela uma colônia... Essas pessoas são boas para serem comandadas, para que as façamos semear, construir cidades, e para lhes ensinarmos a se vestirem e adotarem os nossos costumes..." (5)

2002.
É difícil entender a História; tão difícil quanto emagrecer! Principalmente, quando ela continua a ter como pano de fundo uma realidade abominável e agressora, levando milhões a viverem sob um rebaixamento servil. Foi o que aconteceu com a tevê, dado que, não contente com a sua proposta inicial de criar uma arte para influenciar as massas, foi buscar inspiração para atingir a individualidade. Justamente, aí, a vemos revelar a sua ambição atual e mais funda: acertar a privacidade, a intimidade. Passivos, assistimos a programas que, ao reunir pessoas em uma casa, as obriga a simularem a sinceridade, fingir a franqueza, aparentar a espontaneidade e a imitar a realidade. Pois bem, tais atitudes consideradas como disfarce, dissimulação e ocultação, em outras palavras, são caminhos que denotam uma desordem psíquica, denominada esquizofrenia. Enquanto nós, espectadores, oscilamos da contemplação à paranóia, sem muita resistência.
Deixamo-nos bulir em estruturas que devíamos considerar invioláveis e permitimos mexer com o Sagrado. Sim, a vida íntima, o particular e a interioridade do Ser são dimensões sagradas, espécie de leis divinas, e não podem ser colocadas a nu e nem se permite serem invadidas. Tal reflexão crítica se estende a outros meios de comunicação, especialmente à internet, que, sem eira nem beira, passou a ser terra de ninguém. Nesta, em que pese possamos salvar vidas, pode-se, também, excitar nas crianças estímulos precoces e indesejados e colocar à disposição delas milhares de sites, que têm conduzido a um significativo aumento da exploração sexual na infância. A tecnologia transformou a indústria de pornografia infantil em atividade milionária.
A infelicidade e a desventura de um povo residem no fato de os meios de comunicação tornarem-se o referencial de conhecimento e quando passam a educar mais do que as escolas ou os pais.
Estamos chegando aonde queríamos. Agora, sentemo-nos à mesa.
Os assuntos explícitos nos programas diários, as matérias aí apresentadas e as centenas de informações que caem como um mexe-mexe diante de nossos olhos pregados nas telinhas da tevê, diminuem a consciência do mar de descontextualização que nos cerca. Pessoas há jogadas em uma casa e outras em situação de pegadinhas e, delas, espera-se que façam o que desejarem ou o que lhes vier à mente. Como não existe texto, não há, igualmente, contexto. A comicidade emerge do exagero e não da inteligência; do improviso vem o grotesco e a forma supera o conteúdo.
Tais conteúdos não conferem ao pensamento do espectador a mínima dose de mobilidade, que pudesse ofertar à vida mental o desenvolvimento de quaisquer habilidades, quiçá as críticas. Os objetivos são a passividade, a inércia e nada de desassossego; quanto menos pensar, melhor. Tal conteúdo corrompe a essência própria do pensamento, fazendo-o perder-se em seus segmentos lógicos, fragmentando-o num verdadeiro formigueiro de vãs alterações, isento de autoconservação e, conseqüentemente, sem vida própria. Temos, então, a fragmentação de pensamento evidenciada.
Além de apresentarem conteúdos descontextualizados, observamos um outro fenômeno, a descontinuidade. Esta tem a sua concretização nas intermináveis novelas, que nos passam a frágil idéia de traduzir os anseios do povo e seus questionamentos. Parecem pautar as discussões políticas e interferir na dinâmica social. Parecem, tão somente! Porém, esticadas em mais de 200 capítulos, cada um deles repleto de fascínio e feitiço, elas nascem com um pecado original, pois o drama diário, quebrado e postergado para o dia seguinte, dissemina na sociedade uma adulterada noção de realidade e uma falsa percepção de tempo e de espaço que, penetrando descontinuadamente na vida psíquica, determina uma ilusória visão de mundo e massifica os sentimentos.
A novela deixa-nos mudos. Não só o que diz respeito à expressão oral, mas, especialmente, à fala interna, isto é, ao nosso modo e ato de pensar. Pena!
Sedutora, torna-se um vício, talvez o primeiro a tocar no sentimento das crianças e dos jovens; predadora, aproxima-se da presa, infiltrando em seu organismo psíquico a compulsividade e a ânsia pela mania entediante; ambas disfarçadas. Algemado ao enfoque maniqueísta, o seu conteúdo diário expressa uma das mais eficientes e sutis maneiras de perpetuar, na imaginação dos brasileiros, o desejo de dominar o outro e de submetê-lo. Neste mesmo diapasão, é interessante notar que a escravidão findou-se em 13 de Maio de 1888; porém, só no papel. Isto porque ¾ e as novelas nos dão mostras ¾ não conseguimos nos livrar daquele ranço e dos rancorosos sentimentos escravocratas, que insistem em emoldurar uma sociedade discriminada e discriminatória. Pena!
O conceito desassossego, no parágrafo sobredito, chega em cima da hora e nos remete a uma das mais sérias reflexões, principalmente quando procuramos um novo e encantador imaginário pedagógico, não só para as nossas salas de aula como, também, para qualquer outra atividade profissional. Incentivar o desassossego intelectual e cognitivo é uma das mais preciosas formas do desenvolvimento do pensamento e para a construção do conhecimento. Pena que os meios de comunicação têm visão e ações tão inversas. Por enquanto, leve o leitor fiel estes pensamentos como lição de casa, pois já há espaço e conhecimentos para pensar sobre conteúdos, contextualização, fragmentação e descontinuidade. Por obséquio, reveja-se em seu dia-a-dia.

1492.
Foi este um ano especial, que dividiu a História em duas, antes e depois dele. A terra americana foi batizada por um rio de sangue e por ares do imperialismo. Deveras, o castelhano era uma sensação à parte. As conquistas do império espanhol não se limitavam a aspectos geográficos, porém, passavam pelo domínio do idioma. Parece que os historiadores têm razão ao afirmarem que a Língua é amiga do poder. Em 1595, um Bispo espanhol escrevia: "quando os povos são súditos de um mesmo império, os vassalos têm a obrigação de aprender a Língua do seu senhor". (6)

2002.
Hoje acordei bem cedinho, com idéias borbulhando, para dar cabo deste ensaio. Para escrever não necessito tanto de canetas ou teclados, mas, de uma noite maldormida entre uma página e outra. O tempo é o Senhor da razão, modifica a nossa percepção sobre o que escrevemos ou lemos e nos ajuda a enxergar sem rodeios. Continuemos, pois.
Completados sete anos, no início dos anos 1950, eu fui para a escola. Lembro-me, tintim por tintim, dos primeiros tempos e da professora Zita de Moraes Neves, figura apaixonada e apaixonante, da qual nunca me esquecerei, pois em geral, professores são seres que nos arrebatam e por quem nos enamoramos. Sem malquerer, ela levava a classe de 40 alunos com mãos de ferro e gestos de amor. Um dia, atendendo às suas ordens, desenhei os Meios de Comunicação, lá colocando o rádio, o telefone e o cinema. Mas como é que você esquece a televisão? Ao que respondi, eu nunca vi uma televisão...
Sim, vivia tranqüilo e pacato, a minha vida parecia completa, nunca podendo imaginar que, nas décadas imediatas, estaria por vir uma verdadeira revolução da expressividade humana, tendo como epicentro das novas comunicações as imagens, os sons, os movimentos, a rapidez, as figuras, os figurinos e as estampas. A diferença entre mim e as crianças de hoje é que, se eu tinha um mundo para construir, elas já o têm quase acabado. Basta apertar um botão e tudo funciona. A aceleração e a velocidade são os vestígios que marcam esta geração, transformando o humano em semideus, modificando a sua vontade em cobiças imediatas e ordenando que os seus desejos tenham realização instantânea e, por vezes, inconseqüente. A ambição está morna e a energia difusa, posto que tudo está pronto, parecendo não haver necessidade de um texto ou da visão do contexto. Quanto menos pensar, melhor.
O nosso maior desafio está, pois, em denunciar as "invasões" que sofremos, em analisar as intenções dos que detêm o poder econômico, em criticar severamente os que (des) mandam nos meios de comunicação e em abrir espaços para que a vida seja escrita com uma página de fundo e com um discurso coletivo e comum. Esse texto não pode cultuar o individualismo sob medo de que tal referência aponte para a desgraça de fazer os humanos se deixarem levar pelo deslumbramento do consumismo, pela obsessão do poder e pelo fanatismo do dinheiro, perdendo de vista a Existência e o Planeta em que habitam. Eis a "nova visão" que eu reclamara no início!
Trata-se, em suma, do destino desta pátria e desta América que está em jogo e não pode permanecer nas mãos dos que detêm o poder e das oligarquias que negam o avanço da sonhada democracia. Indo ao que interessa: esta, não a concretizamos somente por ocasião das eleições e por um voto depositado em uma fria urna, todavia, é necessário vivê-la, senti-la e procurá-la em dimensões bem mais amplificadas: a democracia só se corporifica no acesso que possamos ter à educação, à saúde, aos meios de transportes, à habitação, à divisão de bens, comidas e terras, ao lazer etc. e tal.
Serão estes os desafios e a missão dos educadores?
Não só deles, mas também!
Educação é um fenômeno da História e toda a nossa vivência gira em torno dela. Repare na frase anterior, pois o leitor fica em dúvida, não estando claro a quem me refiro, se à Educação ou à História. É que ambas se misturam, se entrelaçam, se expandem juntas ou a sua decadência é simultânea. Ambas escrevem a ascensão ou o declínio de uma nação; escrevemos o texto de um Novo Mundo, ou entraremos no caos. Não há escolhas, pois estamos em cima da hora!
Voltemos a 1492.

(1). O Aurélio ensina que ensaio é um estudo sobre determinado assunto, porém menos aprofundado e/ou menor que um tratado formal e acabado. Esta maneira de comunicação e expressividade foi uma opção do autor.
(2). O autor é Prof. Dr. em Psicologia Educacional pela UNICAMP, membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e escritor. Entre suas obras destacam-se: A Prova Operatória e O pensamento parece uma coisa à-toa, Ed. Edesplan, São Paulo. 2001.
(3). O escritor deste ensaio não é historiador. Então, para compor toda a parte histórica aqui tratada e analisada, foi buscar relatos, idéias e inspirações nas obras de: Bernad Vincent. 1492: Descoberta ou Invasão?. Ed. Zahar, Rio de janeiro. 1992; de Marienne Mahn-Lot. Retrato Histórico de Colombo. Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1994; e de Hans Koning. Colombo: O Mito Desvendado. Editora Salamanca, Madrid. 1990. Sentimo-nos enriquecidos ao lê-las.
(4) Não me tenha o leitor por preconceituoso. A alusão às ostras não se refere, como muitos podem pensar, aos seus duvidosos aspectos mentais ou intelectuais. Todavia, lembro que tal molusco vive em colônias, fixos em pedras ou mesmo uns agarrados aos outros. Daí o sentido figurado da analogia feita: algo ou alguém que não larga o outro, espécie de chupim que vive do alheio. Para bom entendedor...
(5). Ilha Espanhola localizava-se em Haiti, São Domingos, de onde Colombo escreveu esta carta aos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Referia-se aos índios.
(6) Citado no livro de Bernard Vincent.