ENTREVISTA


Independência ou morte

Integra da entrevista na Revista Guia de Boa Escola edição 2005 com o
Prof. Dr. Paulo Afonso Caruso Ronca


Boa Escola: Hoje, quais são os principais atores no cenário da educação da criança e do adolescente? Qual o papel de cada um?
Ronca: Os principais atores são os pais. Não há como dividir o seu papel com nenhuma outra pessoa ou instituição; há como somar, mas dividir nunca, pois a eles é ordenado exercer esse papel. Não há quem possa substitui-los, pois, para crianças e adolescentes, pais são modelos de socialização, fonte de amorosidade, referências de carinho, enfim, a razão da existência. Digamos, um porto seguro, onde, pela convivência e pelo compartilhar do afeto, vão se amoldando caráter e personalidade e se efetivando a saúde mental e psíquica. A escola vem a seguir, por conta de ser o lugar onde se estabelecem as primeiras e marcantes relações interpessoais e se aprende a conviver em comunidade. Ela é o palco das amizades e amizade, para mim, é a dimensão maior que orienta a vida dos seres humanos.

BE: E os professores?
Ronca: Tirou-me a palavra da boca, pois era o que exatamente ia concluir. Ao lado do que lhe falei antes, surgem os professores que devem ser considerados os responsáveis pela aprendizagem formal e mediadores da construção da vida mental, social e emocional. Não podemos sequer imaginar a fulminante e decisiva importância deles na vida de nossos filhos. Se o fizéssemos, com certeza, lhes daríamos o crédito que merecem. Família, escola e professores, uma trinca de ás! Insubstituíveis na formação de um cidadão.

BE: Hoje se fala tanto na necessidade de “educar”. Como o Sr. vê essa questão? Desde quando os pais precisam começar a pensar/planejar a educação dos filhos?
Ronca: Quando os pais trocam as fraldas dos filhos já começam a educá-los, pois, aí, podem se estabelecer os primórdios da relação de afeto. Também o ato de educar se dá, anos mais tarde, quando, por exemplo, precisam proibir um jovem de dirigir, antes de ter a licença. O humano, entre todas as espécies animais, é o que nasce em estado da mais absoluta dependência, sendo que, sem um adulto por perto, o período de sobrevivência é mínimo. Então, entendo educação como um processo de relacionamento que deve conduzir filhos e pais, de um estado de dependência mútua, para um estado de independência. Os pais, neste processo, também devem “se” educar para aprender a independer dos filhos e lançá-los na vida. Hoje em dia vejo que muitos pais sofrem mais em assumir essa busca da independência, do que os próprios filhos. Parafraseando o Imperador Pedro, diria independência ou morte...

BE: Essa busca de independência a que o Sr. se refere não pode sugerir abandono ou até ausência? Para quê se deve educar, hoje, uma criança e um adolescente? O que se deve perseguir como meta na educação?
Ronca: Insisto que a meta é criar seres independentes e isso significa, a seu tempo e modo, proporcionar-lhes condições de escolhas, de opções possíveis, de incentivo ao pensamento crítico, enfim, de andar com as próprias pernas. Assisto a cenas, no mínimo curiosas, quando vejo, por exemplo, pais se dirigirem à faculdade onde estudam os filhos para “brigar” sobre notas com os professores, discutindo possíveis injustiças feitas aos “marmajões”. A que ponto chegamos! Tanto a superproteção, quanto o abandono, prejudicam gravemente o desenvolvimento da personalidade. Superproteger significa asfixiar, não permitir que pensem por si próprios. Por outro lado, o abandono é uma desgraça para os filhos e a ausência, constante ou prolongada, uma meia-desgraça.  

BE: Deduzo que o processo de independência pressupõe frustrações. Certo?
Ronca: Alguns pais, evitando frustrações, imaginam estar auxiliando os filhos. Mero engano, pois, impedindo que se frustrem ou com medo de que eles sofram, criam pessoas mimadas, frágeis e indefesas. Infeliz a criança que não sabe lidar com frustrações ou que nunca as viveu.

BE: Quais as armadilhas das quais os pais devem se desviar, hoje, na educação dos filhos?
Ronca: Educar é semelhante a ter uma pipa no ar: se puxarmos muito, o fio pode arrebentar; se a largarmos, ela dá cabeçadas. Assim e igual é com os filhos: se não formos seguros ao estabelecermos ordens claras, eles “montam” em cima de nós, tornando-se verdadeiros ditadores; se os largarmos, se afastam e perdemos a relação. Se escancararmos as portas, caminham sem eira nem beira; se os fecharmos em casa, perdem experiências necessárias para crescerem.

BE: Então, a dinâmica está em “puxar e largar?” Esclareça melhor.
Ronca: Puxarmos para a responsabilidade e largarmos para as opções possíveis. Puxarmos para que desenvolvam um pensamento crítico sobre suas ações e largarmos para que assumam seus deveres e funções. Puxarmos para que não se tornem consumistas idiotizados e largamos para que tenham ou busquem só o suficiente. Eis o equilíbrio, tão necessário, quanto difícil. A armadilha, a qual você se referiu, está em não cumprirmos, constante, sistemática e alternativamente, esses dois movimentos educacionais.

BE: Os princípios que nortearam a educação dos pais ainda valem para nortear a educação dos filhos desses pais? O que permanece e o que está ultrapassado?
Ronca: Não posso educar meus filhos como meus pais me educaram. O mundo, a partir de 1960, sofreu inimagináveis revoluções sociais e mutações drásticas nas relações interpessoais, educacionais, sexuais, afetivas, econômicas e políticas. O mundo de hoje é tão-somente diferente do de outrora, nem melhor, tampouco pior. O que deve nos orientar, em qualquer geração, é um relacionamento calcado na confiança, na transparência e na busca da independência; o que está ultrapassado é não entendermos que os filhos vivem em ambiente diferente, possuem nova linguagem, vêem inédita paisagem, respiram outro ar, pensam e sentem de maneira distinta, têm novos desejos e recebem inesperados e fortíssimos estímulos.

BE: Pelo que entendo, o Bem e o Mal estão sempre presentes em cada geração.
Ronca: Sim , repito , n ada há de melhor ou de pior; cada período da história é tão-somente diferente. Alguns pais imaginam que se adequaram a essa nova visão dos filhos, mas é necessário lembrar que esse processo é muito mais doloroso do que se pode imaginar. Vejo ainda sérios conflitos entre as gerações. Adaptarmo-nos a essa troca de valores não significa abdicarmos de princípios básicos que seriam a moldura de qualquer época, tais como a honestidade, a sinceridade, a sensibilidade, a honra e o respeito. Menos ainda significa sucumbir perante esse nosso momento da história que instiga à ganância desenfreada e nos torna escravos do dinheiro, da beleza exterior e do consumo ilusório.

BE: Em seu último livro, o Sr. se opõe, sistematicamente, a dar receitas. Todavia, vou desafiá-lo um pouco nesse sentido. Dê algumas dicas concretas para os pais. Com a sua experiência de consultório, o que o Sr. diria aos pais sobre as providências imprescindíveis na relação educacional, na família?
Ronca:Está bem, está bem, rendo-me. É que não sinto a vontade em dar receitas, pois elas só servem para cozinheiros. Mas vá lá: nunca coloque uma televisão em cada quarto dos filhos. Não replete a agenda deles com mil e um compromissos. Celulares? Só devem ser dados aos filhos em caso de urgente necessidade e quando puderem, até pela própria mesada, pagar parte da conta. Consumo zero, então, só dois presentes devem ser dados por ano: um, no aniversário e, outro, na festa religiosa...

BE: Nem no dia das crianças?
Ronca: ...no dia das crianças permito uma lembrancinha das casas que vendem a R$1.99...

BE: Continue...
Ronca: ...evite ao máximo bater boca com os filhos, pois enfraquece a autoridade e nivela as partes por baixo. Agir é sempre melhor do que falar. Para fugir de desgastes matinais, um despertador deve ser dado para que eles acordem sozinhos. Fale pouco... grite menos, o silêncio é de ouro. Não se perca em “brigas” quotidianas, aquelas que se repetem como um tormento todos os dias. Para cada idade há uma hora para irem dormir, entristece-me ver crianças dormindo tardíssimo da noite. Crianças não podem assistir a filmes de terror, de sexo explícito, quanto menos aos inúteis programas que escancaram, deslavadamente, os crimes do dia, às 18 horas. Os pais devem baixar uma “medida provisória” que não permita brigas corporais entre irmãos, é uma questão de salvaguarda do bem-estar mental e de preservação do físico. Filhos não podem xingar ou levantar a mão para os pais. A que ponto chegamos...

BE: O Sr. me parece um homem autoritário?
Ronca:Se passei essa idéia, perdoe-me, não desejei fazê-lo, nem de longe. Não é uma questão de ser ou não autoritário, mas, sim, de salientar a necessidade urgente de preservar a organização nas relações familiares. A saúde psíquica e o desenvolvimento mental dos filhos estão diretamente ligados ao desempenho seguro de papéis familiares, onde imperem a consideração e o respeito mútuos, ao lado da lógica noção de hierarquia. É bom lembrar que hierarquia não exclui a afetividade; que comando não se afasta da amorosidade e que autoridade não significa desamor.

BE: Esqueceu-se do computador e de como os pais devem saber lidar com ele?
Ronca:Em absoluto. É que o computador é um capítulo à parte nessa história toda. É raríssimo ver alguém salientar os seus aspectos negativos, a não ser pelos incômodos que eles, às vezes, ele nos proporciona. Falar mal do computador - desculpe-me a grosseria - é semelhante a xingar a mãe do outro; as pessoas não se conformam com qualquer crítica a ele. O erro não está na sua existência, mas em nós, posto que o transformamos na estrela maior de nossas vidas, uma espécie de divindade que mora no Olimpo, melhor dizendo, nas casas ou na escola. Em torno dele, passamos a viver uma verdadeira histeria coletiva, algo parecido com uma dependência doentia, uma obsessão mórbida.

BE: Mas as crianças e jovens gostam e sabem lidar com ele com incomum perfeição.
Ronca: Sob o frágil pretexto de que estudantes necessitam aprender a “linguagem do futuro”, os pais e a escola incitam precocemente o seu uso, instigam o manuseio sem o menor critério, fazem dele um recurso pedagógico ilimitado. Nem imaginam que pode estar se estabelecendo neles um fenômeno psíquico intitulado “dependência”, em outras palavras, um vício.

BE: Em contrapartida os jovens precisam ficar informados, não acha?
Ronca:Umberto Eco diz que entre nenhuma informação e informação demais, o risco é ficar desinformado. Ou de selecionar informações ao acaso, que é pior. Vejo o computador expondo a infância e a adolescência a índices insuportáveis de informações ou de recreação estéril, quiçá egocêntrica. Muitas vezes, sem maturidade mental e intelectual para utilizá-lo, fazem de “pesquisas”, meras cópias e da possível comunicação social, trampolim para a fofoca destrutiva, onde xingam, achincalham e até ameaçam a vida de colegas. Espero o dia em que os adultos o coloquem em seu devido lugar, diminuindo o seu endeusamento. Ele é um excelente remédio para muitas de nossas necessidades; todavia, utilizado em excesso ou sem orientação criteriosa, o remédio pode matar o doente.

BE: Qual o impacto da TV na educação das crianças e jovens? Qual o espaço que esse veículo de comunicação - inevitável - deve ter na vida deles e como administrar isso?
Ronca: Para você ter uma idéia, no Japão, o total de edições diárias de jornais chega a 70 milhões e, no Brasil, deve estar beirando a marca de 6 milhões. De modo contrário, a televisão atinge, em horários de pico, mais de 60 milhões de brasileiros. Então, por ser o meio de comunicação mais popular entre nós, a sua influência avassaladora. “Televisão”, em si, não existe; o que há, isto sim, são pessoas que a dirigem. Ela entra, pois, em nossas casas como os produtores a desejam, algemados aos índices de audiência, procurando aumentá-los de todas as maneiras.

BE: Então os culpados são os produtores?
Ronca: Boa lembrança. Ninguém é culpado de nada, mas todos são responsáveis por muito. Em síntese, a teve não é ‘boa', nem ‘má', e toda a responsabilidade deve cair em cima dos ombros dos que organizam e apresentam programas. A minha geração lutou desesperadoramente para nos livrarmos da censura que os militares impingiram. Pensávamos nos ter livrado dela instalando a televisão na tomada da liberdade. Eis que a invadiu um “moderno” tipo de censura: o “poder econômico”, um novo nome para “censura”! Assim, os que a produzem, tornam-se escravos do dinheiro - leia-se, consumo - que dirige a sociedade. Os programas têm de estar endereçados ao lucro, sendo essa a sua maior fragilidade. Para muitos diretores, o peso das ambições supera o das idéias; o da ganância, suplanta o de ideais; a cobiça ultrapassa o bom senso. Uma dica prática? Se os adultos, em casa, assistissem menos à televisão, muito provavelmente os filhos poderiam seguir esse caminho.

BE: Utopia, Dr. Ronca?
Ronca: As utopias, se não resolvem nossos problemas, nos fazem pensar, criticar a realidade e procurar saídas inteligentes. Cito, de memória, o escritor Eduardo Galeano e ele me ajuda a responder a essa sua amável provocação: ... me aproximo alguns passos, ela se afasta mais e mais. Caminho outros passos e o horizonte fica mais longe. Por mais que caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para me fazer caminhar...

BE: A vida sexual dos jovens começa cedo. Como o senhor encara essa situação? O que diz aos jovens que o procuram?
Ronca:Não me canso de dizer que s exualidade e maturidade são duas vias que, existencial, física e socialmente não podem ser vividas na contra-mão. Portanto, sexo é privilégio de “adultos”. Meninas se vêem grávidas — ou portam aids — por não ter possibilidades econômicas para evitar filhos; outras, pelo fato de viver sem informações, e, outras, por não seguir qualquer orientação básica. Hoje, beijos, abraços e afagos, tudo consolidado com precisão algébrica na expressão “ficar” , são, digamos, “brincadeiras” possíveis que os jovens fazem. Porém, se são possíveis certas “brincadeiras”, digo a eles que com sexo não se “brinca”. Repito, sexo é privilégio de “adultos”.

BE: Adultos com mais de 18 anos, por exemplo?
Ronca:Não é a idade cronológica que determina quem é ou não adulto. Vejo jovens de 16 anos com alto nível de maturidade; por outro lado, há moços com 25 que pensam e agem como os de 16. Compreendeu?

BE: Antigamente, os pais saiam para trabalhar e a educação era tarefa para mães. Hoje, elas também se vêem forçadas a ir para o mercado de trabalho, ora por necessidade, ora porque têm competência para exercer a sua profissão. Os filhos ficam em casa e, muitas vezes, sequer dão conta das tarefas escolares. Como o Sr. analisa essa situação? Como conciliar tudo isso?
Ronca: Você não me faz uma pergunta, mas me apresenta um denso problema. Não podemos pensar na família-de-hoje com os valores e a prática da família-de-ontem. Estamos engatinhando em um novo mundo, construindo novas relações familiares, e, certamente, pagando um preço alto pelas fortes pressões econômicas/consumistas que nos devoram por todos os lados. As mudanças socioeconômicas submergem as pessoas em graves conflitos existenciais. Todavia, alguns conflitos não se resolvem, administram-se. A distância da casa é o maior conflito íntimo sentido pelas as mulheres-mães, e que lhes pode ocasionar sentimentos de impotência e culpa. Creches, Escolas de Educação Infantil e colégios com turnos mais extensos serão imperiosos nos anos vindouros. A par disso, para os pais, a “qualidade” da relação com os filhos precisa suplantar a “quantidade”; a rotina, a previsão e organização da vida podem superar a ausência forçada e os homens-pais devem participar muito mais do processo educativo.

BE: Todavia, a separação de casais tornou-se um fenômeno extremamente comum. Com pais separados e ambos trabalhando o dia inteiro, como ficam as crianças?
Ronca: A noção de família mudou radicalmente, pois, nela, as relações interpessoais se afastaram, a afinidades se distenderam, as interdependências se distanciaram e a noção de parentesco está enfraquecida. A par disso, estamos construindo uma “nova” família, especialmente diferente da de outrora: a de casais separados. Nada tenho contra separação de pais e a lei lhes reserva esse direito, tornado constitucional. Porém, o distanciamento não lhes diminui em nada a responsabilidade da presença e do afeto incondicionais. Se o divórcio distancia os pais, não lhes pode abrandar o senso da paternidade ou da maternidade. Filhos de casais separados continuam, pois, “tendo” pai, mãe, nome, sobrenome e família. A “ noção de família” precisa ser preservada. Por circunstâncias, crianças terão pais separados, mas nunca podem perder os vínculos entre os dois, porque os dois lhes são queridos. O grave é verem deteriorar-se os vínculos possíveis de união, ou pelo menos de reunião ou, ainda, de respeito e de alguma amizade entre pais; tais vínculos têm por nome família . Atesto que a separação, necessariamente, não causa problemas para as crianças; estes são oriundos de outras fontes: das brigas, dos ódios, dos desajustes emocionais ou da ausência sistemática de um dos cônjuges.