Folha Dirigida - O título de seu novo livro “Quem são nossos filhos?” assinala uma pergunta intrigante. Afinal, quem são eles?
Paulo Ronca - São filhos de um mundo diferente do de outrora. Diferente, tão-somente, nem melhor, nem pior. É inevitável . Hoje, os filhos vivem em ambiente de mudanças dramáticas e bruscas, possuem nova linguagem, vêem inédita paisagem, respiram outro ar, pensam e sentem de maneira distinta, têm novos desejos e recebem inesperados e fortes estímulos. É nesse mundo que precisamos educá-los; nele, devem ser conduzidos à responsabilidade, a experienciar os valores éticos da solidariedade, da afetividade, da interdependência e da honestidade.
Folha Dirigida - Ser pai, hoje, é mais difícil do que há 50 anos? Por quê?
Paulo Ronca - Sempre foi difícil educar. Lembro que minha mãe ficava horrorizada com os Beatles, com Roberto Carlos cantando estar amando loucamente a namoradinha de um amigo meu , ou sabedora do Festival de Woodstock, um símbolo mundial da contracultura. Talvez, o que facilitasse os pais é que eles tinham um modelo educacional rígido, um script pronto, comum e decorado. Época de verdades absolutas, elas indicavam critérios educacionais claros e a conseqüente subordinação às regras. A “noção de tempo” estava ligada à espera, à paciência, à renúncia e à resignação.
Folha Dirigida – E, hoje, são grandes as mudanças! Quando tiveram início?
Paulo Ronca - A partir de 1960, o mundo viveu mudanças que alguns historiadores consideram “espetaculares”. Em meu livro, eu as denomino verdadeiras “revoluções” sociopolíticas. Veja: a explosão dos meios de comunicação, tendo como pano de fundo a velocidade, as imagens, os sons e os movimentos; afrouxamento do sentido de sacrifícios e a dilatação da sensação do prazer e da expressividade da sexualidade; grave distanciamento das diferentes classes econômicas, com o a umento vertiginoso da violência urbana e de vivências na clandestinidade ; expectativas profissionais e econômicas voltadas para resultados; diminuição da autoridade provinda de pais; diferente concepção do significado de família e de seus laços envolventes, tradicionais ou eternos.
Folha Dirigida - O senhor toca na questão da família. Como vê as atuais relações desenvolvidas entre pais e filhos, sobretudo no que diz respeito a casais separados?
Paulo Ronca - Na sociedade contemporânea, está se construindo uma ‘nova' família, especialmente diferente da de outrora: a de pais separados. Nada tenho contra separação de casais e a lei lhes reserva esse direito, tornado constitucional. Porém, o distanciamento não lhes diminui em nada a responsabilidade da presença e do afeto incondicionais. Se o divórcio distancia os pais, não lhes pode diminuir o senso da paternidade ou da maternidade. Filhos de casais separados continuam, pois, “tendo” pai, mãe, nome, sobrenome e família. Pelo menos a “ noção de família” precisa ser preservada. Por circunstâncias, crianças terão pais separados mas nunca podem perder as conexões entre todos os entes que lhes são queridos. Grave é verem deteriorar-se os vínculos possíveis de união, ou pelo menos de reunião ou, ainda, de respeito e de alguma amizade; tais vínculos têm por nome família . Atesto que a separação, necessariamente, não causa para as crianças problemas; estes são oriundos de outras fontes: das brigas, dos ódios, dos desajustes emocionais ou da ausência sistemática de um dos cônjuges.
Folha Dirigida - O senhor concorda com a tese de que os pais, cada vez mais, têm medo de exercer seus princípios de autoridades com os filhos e que, quando o fazem, muitas vezes, é sem medida?
Paulo Ronca - O supersangrento Século XX foi marcado por dimensões de autoritarismo e de exercício do poder, com longas e cruéis ditaduras e tiranias. Ao mesmo tempo, as “verdades absolutas” naufragaram e as conquistas tecnológicas colocaram o poder nas mãos de qualquer pessoa. Uma das maiores revoluções ocorridas no fim do Século foi o desmoronamento da noção de autoridade, de poder e de hierarquia. 11 de setembro é prova do que eu digo. Outras provas? O Presidente americano invadiu o Iraque, passando por cima de decisões da ONU; no Rio Grande do Sul, agricultores plantaram soja modificada e o nosso Presidente se viu “obrigado” a assinar um decreto “permitindo” o que já estava consolidado. À Ministra, só restou chorar. Quem manda em quem? Os adultos perderam a noção de limites. Se nós não os temos, como passá-los aos filhos?
Folha Dirigida - Continue, e a família? E os pais?
Paulo Ronca - Ninguém saiu ileso dessa revolução que atingiu a individualidade e a subjetividade. Não digo que pais, de maneira geral, sentem medo dos filhos. Porém, instalou-se um clima de inseguranças básicas, onde o “sim” é um meio “sim” e o “não” é um meio “não”. Além do que, perdemos qualquer script. Filhos não desejam saber se pais estão “certos ou errados”, mesmo porque tais noções estão enfraquecidas. Todavia, eles precisam sentir a segurança de quem manda, de quem indica caminhos, de quem tem as rédeas da relação educacional nas mãos. Um dos fatores dessa quebra da segurança foi o de termos “endeusado” nossos filhos: “como as crianças de hoje em dia são inteligentes”; “como os jovens fazem tudo com rapidez” . São sempre frases ouvidas e indicadoras de que, quando “idolatramos” alguém, esse alguém “monta” em cima de nossas costas. Por isso crianças fazem terrorismo com os adultos e esses se tornaram reféns delas.
Folha Dirigida – Posso deduzir, então, que se confundiram noções como autoritarismo e democracia?
Paulo Ronca - L onge de mim qualquer idéia de autoritarismo. Vivi a juventude durante ditadura e sei os seus malefícios incalculáveis. Democracia e república, longe de formarem uma história acabada, são, isso sim, uma história que estará sendo sempre contada, homeopaticamente. Democracia e república têm um preço que, de forma alguma é barato. Hoje, qualquer pessoa que, como eu, sonhe com uma sociedade democrática e republicana não pode fazê-lo sem estar envolta nos ares que apontem em direção do pluralismo, da responsabilidade, da dependência recíproca, do respeito, da consideração mútua e da obediência às leis.
Folha Dirigida - Os dois extremos – superproteção e abandono – ainda são
comuns no trato de pais com seus filhos? Quais os prejuízos dessas práticas?
Paulo Ronca - Tanto a superproteção, quanto o abandono prejudicam gravemente o desenvolvimento da personalidade. Superproteger significa asfixiar, impedir o crescimento. Alguns pais, evitando frustrações, pensam estar auxiliando os filhos. Mero engano, pois, impedindo que se frustrem, criam pessoas mimadas e indefesas. Infeliz a criança que não sabe lidar com frustrações ou que nunca as viveu. O abandono é uma desgraça para os filhos; a ausência constante, uma meia-desgraça. Isso porque eles passam a viver o vazio afetivo indescritível e a sentir rejeição e desprezo inimagináveis. Então, referenciais de amor, de amizade e de respeito não se constroem.
Folha Dirigida - Muitos educadores identificam a transferência de responsabilidades da família para a escola, bem como vêem, aí, conflitos e disputas de poder. Como o senhor vê essa questão? Os professores estão preparados para lidar com esse acréscimo de responsabilidade?
Paulo Ronca - Educar dá trabalho, requer esforço e pede presença. Daí, talvez, terem transferido responsabilidades. Ao mesmo tempo em que há famílias que não se sentem “parceiras” da escola, noto educadores tendo medo de pais; esses, por sua vez, perderam a confiança que deveria pautar tal relação. Fez-se um círculo vicioso, terminando no estremecimento da relação de confiabilidade entre as partes. Quanto aos professores, digo tratar-se de uma das páginas mais tristes da história de educação, nas últimas décadas. Desprezados pelo Estado, desvalorizados social e economicamente, esquecidos em sua formação consistente pelas Universidades, estão incluídos em uma classe profissional desunida, experimentando o declínio do reconhecimento sociopolítico e da altivez necessária para suas funções. Sendo também um professor, incluo-me nessa análise tão sombria, quanto verdadeira. Uma nação se constrói com professores ricos, ou melhor dizendo, com ricos professores.
Folha Dirigida - Hoje, vemos muitos adolescentes que já são pais. São “crianças” cuidando de outras crianças. Como o senhor encara essa situação?
Paulo Ronca - Com a popularização da pílula e de outros contraceptivos e com seriíssimas pressões sociais sentidas, a vida sexual inicia-se cedo, tanto para moças, quanto para moços. Óbvio, nas discussões da sexualidade devem estar embutidas dimensões da moral e da ética. Mais do que isso, hoje, elas devem ser estudadas como questões relacionadas à saúde pública. Sexualidade e maturidade são duas vias que, existencial, física e socialmente não podem ser vividas na contra-mão. Portanto, sexo é privilégio de “adultos”. Meninas se vêem grávidas — ou portam aids — por não ter possibilidades econômicas para evitar filhos; outras, pelo fato de viver sem informações, e, outras, por não seguir qualquer orientação básica. Hoje, beijos, abraços e afagos, tudo consolidado com precisão algébrica na expressão “ficar” , são, digamos, “brincadeiras” que os jovens fazem. Porém, vale lembrar que com sexo não se “brinca”. Repito, sexo é privilégio de “adultos”.
Folha Dirigida – O senhor aceita a tese de que a televisão é uma das culpadas pela disseminação da violência. Muitos afirmam que a classificação de horários próprios para crianças e jovens se assemelharia a um tipo de censura. Seria verdade?
Paulo Ronca – Por ser, no Brasil, o meio de comunicação mais popular a sua influência é avassaladora. Ela não é culpada de nada, mas responsável por muito. “Televisão”, em si, não existe; o que há, isto sim, são pessoas que a dirigem. Ela entra, pois, em nossas casas como os produtores a desejam. Em síntese, ela não é ‘boa', nem ‘má', e toda a responsabilidade deve cair em cima dos ombros dos que organizam e apresentam programas. Pensávamos nos ter livrado da censura, instalando-a no altar da liberdade e a ligado na tomada da independência. Eis que a invadiu um “moderno” tipo de censura: o “poder econômico”, um novo nome para “censura”! Assim, os que a produzem, tornam-se escravos do dinheiro — leia-se, consumo — que dirige a sociedade. Os programas têm de estar endereçados ao lucro, sendo essa a sua maior fragilidade. Para muitos diretores, o peso das ambições supera o das idéias; o da ganância, suplanta o de ideais; a cobiça ultrapassa o bom senso. Uma dica prática? Todas as crianças e alguns jovens não podem assistir aos imbecis programas que mostram as violências do dia, justamente às 18h00...
Folha Dirigida – Qual seria, então, o papel dos meios de comunicação?
Paulo Ronca - Qualquer meio de comunicação que promova o afastamento do humano da convivência com a natureza; que o engane, o explore e o oprima, não respeitando a idade cronológica daqueles a quem se dirige; que abuse de consciências com religiosidades histéricas, opressoras e comercializadas; que evidencie maneiras de humilhação; que transforme a violência em espetáculo; que, com densas apelações eróticas, estimule a banalização o consumo desenfreado; que incite a extensa massificação de costumes; que imponha a redução do corpo e a desvalorização da subjetividade, nunca poderá ser aceito como eticamente digno, socialmente justo ou moralmente justificável.