ENTREVISTA


Progressão Continuada

Integra da entrevista na Revista Época publicada em 23-05-04 com o
Prof. Dr. Paulo Afonso Caruso Ronca


Resvista Época:
Por que surgiu a Progressão Continuada?
Ronca: Por vários motivos. Primeiro, por conta de uma preocupação em adequar o sistema educacional, especialmente no aspecto da avaliação/promoção, aos pensamentos que têm surgido na Psicologia Educacional e pelos novos estudos sobre o desenvolvimento mental das crianças. Tais pensamentos apontam no sentido de se dar igual privilégio, tanto ao processo de aprendizagem, quanto ao seu produto final. Os estudos sobre o desenvolvimento mental das crianças também apontam para que o ‘fator tempo’ seja o mais essencial na construção consistente do conhecimento. Assim, contrariando o sentido de pressa e de correia instalados no mundo contemporâneo, queremos uma escola onde haja calma e tranqüilidade para o aprendizado. Para tanto, esse mesmo ‘fator tempo’ não pode ser quebrado na sua seqüência, mas prolongado em sua essência. Em segundo lugar, pelo descalabro social provocado pelas reprovações.

RE:
Descalabro?
Ronca: Exato. O Brasil fez das reprovações escolares uma ‘festinha particular’. Os milhões que estão fora da escola ou os que não passam da 4ª série, devem esse ‘prodígio’ ao fato de ter sido reprovados, não só uma vez, como muitas. A ‘expulsão branca’ de alunos ou a desistência desses é uma dívida que a Educação tem com milhões de brasileiros. As notas e reprovação no final de um ano são os fatores responsáveis, entre outros, pela exclusão escolar/social. Só para exemplificar: quantas vezes eu não recebo em meu consultório crianças de 12 anos, na 4ª série. Motivo? Amargaram já três reprovações.
Poderia dizer que a Educação brasileira viveu, ou vive ainda, uma ‘cultura da reprovação’: escola boa, e aquela que reprova; professor bom, é o que dá nota baixa; Universidade boa é a que faz vestibular difícil. Além dessa cultura vejo outra, a da ‘metralhadora’: alunos só estudam se sentirem uma em suas costas: a metralhadora das notas ou do fantasma da reprovação. Não se estuda para crescer, para construção do pensamento, mas para notas ou para a aprovação. Estudo e a conseqüente construção do conhecimento não são necessidades estimuladas, que viessem emergir de dentro para fora, todavia são imposições de fora para dentro.

RE: Mas muitos criticam a Progressão Continuada.
Ronca: Criticam porque não a entenderam ou não tiveram, nem tempo de assimilá-la, quanto menos orientação para isso. E também porque ela traz enormes modificações para dentro da escola, e ela é uma das instituições mais resistentes à mudanças.

RE: Quais seriam essas mudanças necessárias para a implementação da progressão continuada?
Ronca: Algumas mais exeqüíveis, como por exemplo, um processo de avaliação mais longilíneo, sistematizado, cumulativo e individualizado; um diagnóstico preciso dos alunos com dificuldades e um sistema de acompanhamento de recuperação mais efetivo, ágil e rápido. Agora, a grande modificação, a mais difícil é a da percepção do tempo. Enquanto cada um de nós, educadores, não modificarmos, internamente, a noção de tempo, não entenderemos progressão continuada. Tal percepção é ideológica. O fator tempo é ideológico. Pela progressão continuada a vida escolar não é mais entendida como um ano estanque (de dias letivos), mas em ciclos mais longos e sempre interligados, com uma dinâmica diferente e apropriada a cada circunstância da comunidade. Então, não há mais ‘passar de ano’, mas, isso sim, envolver os estudantes em ciclos mais elásticos.

RE: Explique melhor o “ideológico” na noção de tempo.
Ronca: A noção de tempo é uma das últimas a se configurar na mente da criança, porque é uma das mais complexas. Só com o passar dos anos, é que ela vai se introjetando na mente, dado ser uma noção cultural. Cada cultura dá ao tempo o valor e a importância que deseja ou pode; assim ele é ideológico, pois está carregado de valores, tanto políticos, quanto econômicos. Veja: por que a escola pública estabelece um período só de 4 horas diárias para os seus alunos, e, na particular, eles ficam de 6 a 7, quando não o período integral? Porque o Estado não deseja investir em Educação. A criança brasileira deveria passar muito mais tempo na escola. O tempo tem um ‘valor’ econômico, político e existencial e nós o dimensionamos conforme a importância dada a ele. Investir em educação seria, também e por exemplo, reavaliar o tempo em que o aluno passa na escola, e como ele o aproveita.

RE: Não foi muita rápida a aplicação da lei da progressão continuada?
Ronca: Um legislador cria uma lei e pensa que ela vai modificar a realidade. Não é bem assim. É mais ou menos como se, hoje, alguém chegasse para mim e dissesse: Daqui para frente você não vai mais se chamar Paulo, e sim Pedro. Ora, imagine quantas dificuldades eu teria para me adaptar a essa situação. Igualmente com a educação: troca-se o nome e, num passe de mágica, espera-se uma outra realidade: trocamos, por exemplo, 1º e 2º graus para Ensino Fundamental e Médio. Mudou algo? Nada. Sabe, para mim, a escola brasileira ainda continua divida em ‘primário, ginásio e colegial’...

RE: Na foi muito drástica essa medida?
Ronca: A progressão continuada é uma medida drástica, não há dúvidas. Contudo o legislador, a meu ver, tinha mesmo de tomá-la. Em que pese todos os que estão no palco da escola, professores, alunos, pais e diretores não estivessem preparados para ela, tínhamos de fazer algo que impedisse o câncer da expulsão dos alunos, causador da exclusão social. Se fôssemos esperar que isso acontecesse, o doente, de mal que estava, teria morrido. Eu acho que a progressão continuada foi leve, dado que eu defendo uma idéia mais arrojada, a da Promoção Automática. Ela ainda virá. Escreva.
Criança não pode ficar fora da escola ou interromper seus estudos de maneira alguma. Escola é como praia: todos têm o direito de freqüentar. Além do que, pela progressão continuada concretizamos a obrigação dos adultos estimular a vida acadêmica e incentivar a permanência das crianças na escola. Enfim, quem está dentro não pode sair e quem está fora tem de entrar.

RE: A progressão continuada não criaria, por outro lado, uma legião de diplomados sem cultura?
Ronca: Não, ela não é e nem será a responsável pelo por uma legião de analfabetos, que há ou que haverá. Acompanhe o meu raciocínio: estudantes com diplomas, todavia “analfabetos”, como muitos intitulam, existiram antes mesmo da progressão continuada. Você se lembra de por quantos anos não houve o Ano Básico, em todas as Universidades? Era para suprir as deficiências dos anos anteriores. Ora, é porque o aluno lá chegava, aliás, como ainda pode chegar, sem saber interpretar um texto. Outra questão: depois de cerca de 13 anos de escolaridade, todos têm de passar por um famigerado cursinho, pois não estão preparados para um vestibular. Quer dizer, 13 anos de escola, mesmo nas assim consideradas melhores, não seriam suficientes? O que é o cursinho além de um atestado de incompetência da própria escola?

RE: Mas se isso acontecer, essa legião não vai estar mal-formada pela escola?
Ronca: Supomos que continuemos nessa conjuntura mesmo com a progressão continuada, o que eu não acredito. Pelo menos, com ela, não estamos jogando milhões de crianças nas ruas para ali aprender a serem marginais. Progressão continuada não é prêmio de consolação, para quem vai mal ou tem dificuldades. Todavia, é um avanço fundamental para a nossa escola, embora precise ser ainda adaptada e viabilizada.

RE: Por que só a escola pública tomou a iniciativa da progressão continuada.
Ronca: Primeiro porque é lei, e com tal, deve ser seguida por todos. Segundo porque, alí, estava o cerne do problema da exclusão. Afora isso, a escola particular não precisou utilizá-la, dado que o exame de reclassificação impede, em muitos casos, a reprovação. Tal exame passou a ser uma ‘promoção automática disfarçada’, muitíssimo bem usada pela escola, em especial a particular.

RE: Os candidatos a cargos eletivos dizem ser contra a progressão continuada, pois ela é a responsável pelo atual situação de alunos que passam sem saber. É verdade?
Ronca: O Estado brasileiro é incompetente e os governantes mais ainda. Muitos candidatos propõem o fim da progressão continuada, sim vejo isso. Com fins eleitoreiros, é claro, pois duvido que qualquer um deles entenda do assunto. Não entendem nada. Óbvio, encontraram um bode expiatório para o caos da educação, e esse se tornou a progressão continuada.

RE: Caos da educação?
Ronca: Infelizmente é a verdade. Hoje somos uma geração de professores desesperançados, desiludidos, sem ânimo e mal-amados. Somos uma geração de professores tristes com a nossa profissão e trabalhamos nela porque precisamos de um mísero ordenado, e não pela satisfação ou por acreditarmos na nossa missão de transformadores da sociedade. Os pais nos tratam como seus subordinados, para não dizer empregados, e a escola – quem é “a escola”? – é conivente; o aluno sempre tem razão, e nós, de desacreditados, passamos ser os vilões da história. O Estado brasileiro não dá a menor importância à escola, em palavras simples: não há relação afetiva entre Estado/Educação/Escola. O Estado necessita dar aos professores o enriquecimento cultural, econômico, político à altura dos mais importantes profissionais dessa nação. Sinto em dizer, se não iniciarmos esse processo de amorosidade e de busca de profissionalismo, o barril de pólvora, no qual estamos já sentados há anos, vai explodir.

RE: Não estaríamos perdendo tempo com a progressão continuada?
Ronca: Estamos todos maravilhados com essa “nova” criança que construímos. Nós a consideramos tal qual fosse um ET, diferente do que fomos, mais espertas, mais vivas, mais ligadas no mundo. Puro engano. Pensamos que, por saber mexer em um computador, por saber programar um celular com facilidade, por saber pesquisar ou se comunicar na Internet, estamos diante uma geração de argutos ou formando ‘novos inteligentes’. Outro engano. Volto à questão da “ideologia do tempo”: pressa não é sinal de inteligência; pelo contrário, é sinônimo de porcaria. O problema é que os fatos deslocaram os valores. Perguntar-me-ia: ao lado dessa parafernália que oferecemos às crianças, estaríamos também proporcionando a elas experiências para viverem a ética; estaríamos preocupados com a sua formação moral e com animá-las para a construção do conhecimento? Elas têm destrezas, sim, muito importantes, porém não podemos nos esquecer de que vida mental se constrói devagar e lenta. As habilidades da inteligência não requerem pressa, pelo contrário. Para saber ler e entender o que se lê, há que se ter maturidade e maturidade está ligada ao “tempo cronológico” e não às destrezas. Exatamente por ter mais facilidades, temos de nos preocupar com alguns aspectos importantes, quais sejam, a necessidade de formação cidadãos, responsáveis e sociocêntricos, que saibam pensar com lógica, com sistematização, com sensibilidade.

RE: A escola é atrativa?
Ronca: Está difícil para ela competir com os meios que, por imagem, som e movimento, também estimulam a construção do conhecimento. 

RE: O senhor é, ou está, otimista em relação aos rumos da educação brasileira.
Ronca: Otimismo ou pessimismo são visões subjetivas. O que eu estou objetivamente fazendo é trabalhar incansavelmente para que a educação cumpra o seu papel político de transformadora da sociedade, que apresente proposta para uma sociedade mais justa e que forme cidadãos responsáveis e éticos. Todavia, por estarem distantes do que o desejado e por serem muitas e graves, acho que não verei essas transformações . Tenho para mim que nasci para ser semente e como tal morrerei.